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Palestina denuncia agressões de ex-marido brasiliense. PCDF investiga

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Mulher diz que sofreu violência física, psicológica e patrimonial na época em que foi casada. Ela acusa o ex de mantê-la longe das filhas

A 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) investiga um caso de violência contra a mulher envolvendo uma palestina e o ex-marido, ambos moradores do Distrito Federal. Desde 2015, a vítima registrou quatro ocorrências, denunciando agressões físicas, psicológicas e ameaças. Hoje, ela está longe das duas filhas, uma de 3 e outra de 6 anos, e luta pela guarda das crianças. O caso, acompanhado pela Comissão de Combate e Violência Familiar da Ordem dos Advogados do Brasil na capital (OAB-DF), teve desdobramentos neste Carnaval: o homem foi preso no sábado (2/3), por não pagar pensão alimentícia.

O casamento de Doaa Mohamad Yousef Alfalna, 30 anos, com o empresário brasiliense Saeid Nasif, 44, foi negociado pelo pai da noiva quando ela ainda morava na Palestina. Após o enlace, em 2009, eles vieram para o Brasil, formalizaram a união em um cartório do Distrito Federal, se estabeleceram em Taguatinga e abriram uma loja de presentes em Brazlândia. Ao longo de oito anos de relacionamento, tiveram duas filhas. Uma das ocorrências de Maria da Penha foi registrada durante a gestação da caçula, em 2015.

“Ele ficou enfurecido pois soube que a segunda filha também era mulher. Na Palestina, é caso de divórcio, porque eles valorizam mais os homens. Ter filhas não é visto com bons olhos. Pensam que a esposa tem problema. Assim que ele descobriu o sexo da criança, me agrediu. Bateu na minha barriga e na minha cabeça”, lembrou Doaa, em entrevista ao Metrópoles.

A mulher, que hoje vive escondida na capital por medo do ex-marido, recebeu a reportagem para contar o drama que viveu nos últimos anos. O português com sotaque carregado às vezes dá lugar a expressões em árabe, língua nativa de Doaa. Segundo seu relato, ela só soube que era vítima de um crime quando viu um comercial na televisão, em 2015, que falava sobre a violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha e o Disque 180. Na época, ela esperava a segunda filha.

Eu vi que aqui no Brasil era errado, que eu podia denunciar e não viver mais daquele jeito. Memorizei o número [180], o nome da lei e, quando a minha vizinha me levou ao hospital para tratar os ferimentos da agressão, eu disse que queria a ‘Maria das Mulheres’. Não consegui explicar direito. Chamaram a polícia e me perguntaram se eu tinha sido agredida. Foi quando eu registrei a ocorrência e ele ficou sabendo

Doaa Mohamad Yousef Alfalna

Depois da primeira denúncia, Doaa diz que a situação em sua casa começou a ficar difícil. Na época, Saeid Nasif chegou a ser preso, mas pagou R$ 12 mil de fiança e ganhou a liberdade. Desde então, o companheiro passou a deixá-la longe das filhas por determinados períodos, ameaçando afastá-las para sempre, segundo a mulher.

Em 2017, ela registrou novas ocorrências e o homem decidiu “devolvê-la” para a família dela, na Palestina. “Ele me levou dizendo que íamos viajar para reatar. Quando chegamos, me devolveu para o meu pai. Meu primo assinou o divórcio e ele voltou para o Brasil”, disse Doaa. Saied, que tem origem árabe, nasceu no Distrito Federal.

Tortura no exterior
Em entrevista feita pela Promotoria de Justiça de Taguatinga, que acompanha o caso, Doaa registrou que foi torturada pela própria família na Palestina. A mulher contou que teve os cabelos cortados e as unhas arrancadas. Detalhou que hoje usa unhas postiças.

A mulher relata que cedeu às pressões da família para se casar novamente porque viu no novo matrimônio uma oportunidade de voltar ao Brasil. Pela tradição árabe, após a cerimônia, o casal recebe um “dote” dado pelo pai da noiva.

No segundo casamento, formalizado segundo as leis da Palestina, o casal recebeu quatro pulseiras de ouro. Doaa vendeu as joias escondida do marido e comprou passagens para voltar ao Brasil. Ela fugiu e chegou ao país em 20 de setembro do ano passado.

Com o restante do dinheiro das joias, ela conseguiu se manter em uma quitinete no Areal e passou a pedir ajuda para conseguir restabelecer contato com as filhas. Segundo Doaa, quando o ex-marido voltou ao Brasil, ele deu entrada no divórcio usando o documento assinado pelo primo na Palestina, passou todos os bens da família para o nome dele, tirou o dinheiro da conta dela e a impediu de ter contato com as meninas.

Doaa recorreu ao Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e ao Conselho Tutelar de Taguatinga para pedir ajuda e voltar a ver as filhas. Na ocasião, Saeid informou, por telefone, que só permitiria o encontro com decisão judicial.

A mulher palestina entrou na Justiça e aguarda decisão sobre a guarda das crianças. No entanto, uma decisão de 2018 obriga Saeid a pagar pensão alimentícia a Doaa no valor de três salários mínimos. Como nenhuma parcela foi paga, ele foi preso no sábado (2). Até a noite de segunda (4), ele permanecia detido no Departamento de Polícia Especializada (DPE).

Violência psicológica
Para os psicólogos que acompanharam o caso, Doaa está submetida a uma violência psicológica que lhe causa intenso sofrimento. A constatação ocorreu após entrevistas com a mulher e as filhas. Segundo a análise, o caso também representa violação às crianças, por terem seu direito de convivência familiar prejudicado.

A análise feita por especialistas atesta que as estratégias de dificultar o acesso e o contato com as filhas é um dos principais fatores para o sofrimento. O sofrimento tem sido imposto pela morosidade nas respostas judiciais que possam lhe assegurar este contato. Ela entrou com pedido de visitação em setembro de 2018 e ainda não teve retorno.

Devido à demora da Justiça para definir a guarda das crianças, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), em conjunto com o MPDFT, realizaram um encontro entre as crianças e a mãe. Tudo foi acompanhado por psicólogas.

“Não reconheci as minhas filhas. Fazia mais de um ano que não tinha contato com elas, que estão crescendo e eu não posso acompanhar. Foi uma visita rápida, mas muito reconfortante”, disse, emocionada.

As especialistas afirmam que verificaram, novamente, um sentimento de lealdade para com a figura paterna. A filha mais costuma qualificar as atitudes do pai como positivas, e as da mãe, como negativas.

A criança chegou a dizer que a mãe a maltratava pois dava “besteiras” para ela comer e “os pais têm que oferecer alimentos saudáveis”. No entanto, em um outro momento, a garota diz que gosta de ir ao shopping com o pai porque ele compra lanches para elas. Para as psicólogas do MPDFT, há indícios de alienação parental.

 

Violência patrimonial
Além da questão emocional, há a financeira. Segundo o processo, em 30 de junho de 2017, o saldo de Doaa no banco era de R$ 129 mil. Após o registro de uma ocorrência de ameaça feita contra Saeid, entre os dias 14 e 19 de julho do mesmo ano, foram realizadas duas transferências, de R$ 70 mil e R$ 32 mil, respectivamente.

Também foi constatada uma alteração no contrato da loja, na qual Doaa passa as suas cotas para o marido. Ela era proprietária majoritária, com 28,5 mil cotas, enquanto ele tinha 1,5 mil. À Justiça, a palestina denunciou que se trata de uma transação ilegal, uma vez que ela não assinou papel algum.

Exemplo
As advogadas que trabalham na defesa de Doaa atuam de forma voluntária. Carolina Rolim e Patrycia Coalho se sensibilizaram com a história e resolveram ajudar. “Esperamos que se torne um exemplo para outras mulheres vítimas de violência. Não importa se é brasileira ou estrangeira. É preciso denunciar”, reforçou Patrycia.

O secretário adjunto da Comissão de Combate e Violência Familiar da OAB-DF, Rubens Pires, explica que a questão de Doaa não se trata de problemas culturais. “Vemos que direitos estão sendo feridos. O nosso papel é exatamente o de prestar apoio e orientação para essas mulheres. Qualquer vítima de violência doméstica pode contar com os serviços da nossa comissão. É importante que elas saibam que não estão sozinhas.”

O outro lado
Em uma reunião marcada pela Promotoria de Taguatinga, Saeid deu a sua versão sobre as denúncias. Ele contou que nunca impediu a mulher de ver as filhas, pois mantinha o mesmo endereço e números de telefone. Acrescentou que, desde a separação, Doaa não mostrou interesse em ver as meninas.

Com relação às agressões, ele negou as acusações e disse que a mulher mentiu para a polícia. Sobre o episódio da gravidez da última filha, ele defendeu que a companheira tentou se matar e que ele teve que agir para impedir o ato. Reforçou que nunca foi violento.

A reportagem não conseguiu contato com Saeid, que continuava preso até a noite de segunda (4). A advogada que o representa também não foi localizada.

Fonte: metropoles

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